[escrita | em colaboração com o artista Rui Macedo~2004]
texto de ficção concebido por convite do artista para inserção no catálogo da exposição de pintura ‘Quarto Azul’ na Galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea – Lisboa.
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três vezes quarto
Só quando pousou a terceira ou quarta peça de roupa sobre a cama é que conseguiu finalmente tirar da cabeça a sucessão hipnótica das árvores ao longo dos últimos quilómetros da viagem.
A memória saía agora de uma estranha amnésia que reduzira a realidade a uma grelha, aprisionando-lhe o olhar entre dois eixos: uma faixa horizontal, ligeiramente ondulante e a alternância vertical das silhuetas das árvores, escuras e esguias, com o vazio entre elas. Esta visão, desprovida de horizonte e de profundidade, sobrepôs-se a todas as referências geográficas e ela encontrou-se naquele lugar sem que esse se ligasse ao resto do mundo, experimentando um misto de excitação e ansiedade. De momento sabia apenas o que a levara até ali e isso pareceu-lhe suficientemente próximo de uma coordenada.
O saco ficou vazio. A rapariga olhou para o fundo e percorreu-o, canto a canto, com a mão num movimento rápido – sim, estava realmente vazio. A confirmação táctil devolveu ao seu olhar um confortável grau de credibilidade e marcou definitivamente a sua presença ali.
Ao barulho de passos no corredor seguiu-se uma cara sorridente junto à porta:
- Então…que te parece? Quando estiveres pronta mostro-te o tal sítio. Estou lá em baixo na cozinha.
E já só a voz:
-Vou fazer café. Queres?
Sim, queria. Quanto ao resto, não sabia o que lhe parecia mas somente o que lhe aparecia. Nada que um café não resolvesse e, de qualquer modo, este despojamento mental não lhe desagradava de todo.
Arrumou rapidamente a roupa e as coisas que trouxera, meteu a máquina fotográfica na mochila e desceu guiada pelo aroma que as suas narinas trilharam como carris.
Foi assim que chegou, para ficar por poucos dias e a seguir partir, não sem antes passar por uma série de acontecimentos que se enterraram na memória como sementes e logo germinaram indiferentes ao mês que corria…
Um :
Já andou pelo menos uns três quartos de hora e não faz ideia qual a fracção de caminho que terá percorrido relativamente ao seu destino.
Sente: frio seco e crescente; sons muito claros e definidos; os olhos que se defendem da luz demasiado intensa, embora já baixa no horizonte; a mão direita que se agarra ao forro do bolso e prefere a cegueira ao frio; a mão esquerda que se alojou entre a gola quente e o pescoço, ali ficando, a zelar pela continuidade de todos os ritmos que regem o seu corpo vivo; quando inspira, o ar causa-lhe dor e é incapaz de definir qual o seu cheiro; dificilmente distingue cores nas densas massas de sombra.
Pensa: “nada como andar a pé sobre o asfalto para saber o que é a vulnerabilidade, especialmente quando o gelo se forma, um pouco por toda a parte. O alcance dos meus passos, esta velocidade a que vou, o modo como a minha atenção se prende em fragmentos ou se espraia no panorama a tempos inconstantes… - em nada eu pertenço à natureza deste piso. O frio não me deixa estender os sentidos até às coisas. Se não fosse a beleza do barulho que faz, diria que me agride. A luz intensa e oblíqua roubou todas as cores, mas não as que tenho aqui no bolso” (várias riscas coloridas desfilam perante o olhar a ritmo cinematográfico).
Na cauda deste pensamento veio um sorriso, lançando-se, num ‘timing’ perfeito, da mudez da rapariga para os olhos de quem seguia ao seu lado. Continuaram a conversar, ligando todos os poucos minutos que lhes restaram de caminhada.
Dois :
No momento em que regressa ao quarto, é já noite. Quando acende a luz, um flash dispara na sua memória, expondo o entendimento e a sensibilidade a uma mordedura instantânea. Para além de todo o raciocínio e lógica, o quarto entrou dentro dela muito antes de ela nele entrar. Nos fios de arame de uma estrutura geométrica irá estender planos e mais planos e deixá-los-á secar até que sejam muro ou passagem. Tem três dias, não mais, para que estes se eternizem, nem que seja numa história.
Vê (não necessariamente por esta ordem): chão e tecto, três paredes, três portas, uma delas envidraçada que acede a uma varanda, uma janela. Nos vidros vê-se de volta, a mão sobre o interruptor, a porta que faltava, a parede meia com o corredor. Os objectos voam ainda no espaço, não aparentam grande preocupação em pousar, ancorados pelas suas sombras.
Ouve (na íntima acústica craniana): “ (…) não sei se vais achar isto um bocadinho estranho…acho que não. Vou pedir-te que me faças um favor: empresta-me os teus olhos. Achas que podes? (…) Eu explico-te melhor. Há um sítio que é como se fosse parte do meu corpo – durante alguns anos eu cresci com ele e nunca me consegui separar. É um prolongamento essencial, uma espécie de inércia de mim (…) Não tem nada de muito particular, é apenas mais um pedaço de mundo. Pensava que poderia regressar um dia para viver lá. Mas algo surgiu. Daqui por dois meses será pouco mais que um terreno aplanado por máquinas. Preciso de guardar algumas imagens tal como é, só que não consigo lá ir, tenho um medo terrível de ser engolido como por um buraco negro…afinal, é uma parte de mim que vai deixar de existir, percebes? Falei com a minha irmã e ela disse-me que tinha muito gosto que ficasses em casa dela o tempo que quisesses. Não é muito longe de lá e garanto-te que o local é muito bonito. Posso contar contigo?”; silêncio ; ruído de folhagem, à laia de barulho de fita por gravar.
Três :
O primeiro dia consome-se lentamente nas brasas da lareira. À medida que sucumbe à contemplação do fogo, apercebe-se como o tempo toma conta dos seus assuntos sem pedir satisfações a ninguém, transformando ali as horas em luz, calor, fumo e cinzas: uma triagem perfeita do essencial e do acessório através da combustão. Aquela eficiência brilhante e intensa nada tinha a ver com o dramático apego que envolvia o seu amigo numa sombra de nostalgia. Mas ela compreendia-o bem e tinha aceite o pedido. No filme da câmara fotográfica repousam as primeiras exposições.
O fumo insinuou-se, inebriante, e levou-a consigo, deixando-a no primeiro andar antes de seguir pela noite acima.
Adormece. Não chega a sentir que aqueceu os lençóis. Furtivo, o sono rapta-a com uma pancada seca. Dorme ininterruptamente. Sonha. Passam sete horas. Enquanto dorme, viaja e aprende. Não tem qualquer dificuldade em encontrar o caminho de volta até à cama.
Acorda. Gradualmente veste o seu corpo e calça a sua vigília. Acaba por se levantar ligeiramente na cama, encostando-se à cabeceira. A luz tinha avançado dois passos no soalho e trepava pela textura da coberta. Tenta recordar o que sonhou, mas não consegue acrescentar nada a uma inexplicável sensação de familiaridade que cobriu tudo o que a rodeia. É então que vê primeiro um, depois dois e, em seguida, uma série deles: carrinhos coloridos descrevem uma fila ziguezagueante a partir da porta entreaberta. Prende-se na expectativa de vê-los sob a luz do sol, cada um deles uma promessa de cor saturada e reluzente. Mas estão estáticos. São pequenos objectos mágicos que viajam para além da imobilidade e não se apressam a chegar ao tapete de sol.
Persiste um barulho de água domesticada, ressoando em ecos de viagens por canos e torneiras até açudes de esmalte, inox e porcelana. Fecha os olhos e mergulha no som, acompanhada pelas cores dos carrinhos, ainda em sombra, que usa em grandes azulejos quadrados para forrar a sua recôndita represa interior. Pensa que nunca mais será tão triste chorar com lágrimas vagamente coloridas.
Quando, uma fracção de segundo depois, abre os olhos, o soalho é um deserto de madeira.
Quatro :
Desta vez está sozinha e apercebe-se da total calma emanada pelo local que denuncia a sua presença num recorte em alto contraste – sabe demasiado para que lhe seja possível escapar do vínculo à futura e irreversível mudança. Confia na sua câmara para resgatar toda aquela beleza às engrenagens do tempo. Os seus olhos revelaram-se tão frágeis como os dele, afinal – portões escancarados – e, ao longe, já a aura de ameaça tinge o horizonte. Neste dia, não só o quarto se envolveu num véu de familiaridade. Também aqui tudo respira pelos seus poros e essa falta de distância retesa-lhe os músculos, aguça-lhe os sentidos e acelera-lhe o ritmo cardíaco.
Reconhece toda a extensão daquele sítio avançando por um silêncio minado. A cada passo inspira profundamente o ar – mais quente e húmido que no dia anterior – um complexo código de odores que parcialmente decifra em estratos de memória. O peso do corpo é repercutido pela terra, mais ou menos densa, no caminho principal, nos trilhos diversos, por baixo dos ramos e da vegetação. Amontoam-se várias pedras onde já não existe uma casa pequena. Um pouco mais ao lado, um poço. Pequenos declives pontuam o terreno com suavidade de tal modo que só caminhando se descobrem zonas antes ocultas, apesar da paisagem se estender, generosa, ao olhar de quem chega. De toda a poesia que existe algures numa carta topográfica com curvas de nível e pontos oscilantes em três coordenadas, ficará uma neutra faixa cota constante, xis metros acima do nível do mar. A angústia de quem conhecia ali os caminhos até ao âmago das coisas é compreensível. A transformação será demasiado rápida e violenta – destituído desses mapas interiores dificilmente acreditará que tudo subsiste sob uma outra forma, ao seu alcance. Sente-se invadida por esse mal-estar que lhe deveria ser alheio e passa as mãos pela cara para afastar a humidade que se pega, procurando devolver-se a si mesma. Agarra a câmara e reage, protegida pelo escudo da lente. Nuvens que cruzam, velozes, o céu são um aviso de como o tempo urge.
Fotografa. A sequência dos disparos segue um percurso estrategicamente delineado, deixando para a eloquência das próprias coisas o discurso que está para além da razão. Regista, sem grandes hesitações, todo o tipo de pequenos fragmentos – erva, pedras, musgo, troncos, ramos, ferro – atenta aos golpes mais certeiros de luz e sombra e ao alcance dos enquadramentos. Termina fixando-se numa posição – centro arbitrário de um olhar que varre o espaço em torno. Com eixo no tripé, abrange tudo o que a rodeia, fotografando cada uma das faces de um cristal imaginário que lapida com precisão.
Cinco:
O enrolar e desenrolar compassados do dedo no fio do telefone pautam o ritmo da conversa. Ao falar com aquela pessoa distante relega partes do seu corpo para um silêncio forçado. Perplexos, mãos, pernas, tronco, braços, cabeça, ora continuam em vão a sua dança, ora embarcam em rotinas mais ou menos absurdas e repetitivas, obstinados em negar a sua inconsequência.
Voz : “ (…) hoje? impossível (…) em princípio, amanhã, ao fim da tarde, ou então na quinta (…) onde? (…) espera aí, deixa-me ver se tenho aqui uma caneta para apontar (…) diz (…) hum, hum (…) sim, já estou a ver qual é (…)’tá, depois eu ligo-te quando estiver a chegar (…) eu? não , não estou , vim até casa de uns amigos. Pôr-me a uns bons quilómetros daí de vez em quando é preciso. (…) pois, e também já tinha combinado vir aqui tirar umas fotos (…) ah sim? está aí? (…) então deixa-me lá falar com ela (…) beijinhos (…) ’tou? então?(…) [cinco minutos de diálogo correm, palavras atrás de palavras, pausas, riso]
O encadeamento das frases e a lógica da comunicação monopolizam o raciocínio deixando que um plano mais subtil colha tudo o que absorve naquele momento como uma rede fina onde até as mais pequenas partículas pousam, a seu tempo, interrompidas num ponto da trajectória. Quatrocentos e noventa e cinco segundos de sedimento testemunham uma árvore através dos quadrados de vidro da porta da cozinha. Em cada parcela, multiplicam-se os tons e oscilam as tramas de uma textura orgânica, segundo após segundo, permitindo que a mente se espraie exponencialmente, verde e serena por baixo de todas as palavras.
Uma das mãos encontrou finalmente rumo próprio, explorando agora os veios do pálido mármore da banca da cozinha que espreitam sob a superfície lisa e fria. O movimento dos dedos oscila entre um deslizar despreocupado e o registo dos caminhos sinuosos assinalados, cada um com a sua côr. Nalguns momentos pára e deixa que se estabilize um nível comum de energia entre ambos o que invariavelmente faz com que se volte a mover.
Ela: Desliga o telefone e aproxima-se da porta, olhando através de um dos pequenos vidros que rapidamente se embacia e a obriga a suster a respiração. Pensa que gostaria de poder correr os dedos pelas raízes de uma árvore como se fossem cabelos ou quebrar a rigidez do mármore e deixar que os veios flutuassem – algas num mar gelado. Foge da densidade das coisas que as separa em dentros e foras, caixa e conteúdo, presença e dissolução. Foge da gravidade que arruma tudo numa hierarquia entre céu e terra. Vê-se num caminho envolto na densa bruma do medo. Uma corrente de ar causa-lhe um arrepio e leva aquele farrapo de sonho. Precisa de sair rapidamente e aproveitar o resto da tarde para conhecer melhor a cidade.
Seis:
O núcleo mais antigo de casas organizava-se numa estrutura de teia que percorreu exaustivamente e em diversos sentidos. A casa estava situada numa zona que fazia agora parte do tecido urbano, mas há umas décadas atrás ter-se-ia situado ‘fora de portas’. Um curto percurso a pé conduzira-a até um dos largos principais, a partir do qual fez o seu reconhecimento. Caminhou com alguma rapidez, especialmente no início, impulsionada pela necessidade de obter uma representação daquele espaço. Só desse modo seria possível mover-se entre diversas escalas e elevar-se acima da complexa volumetria para perceber a paisagem por inteiro. A cada nova ligação que estabelecia entre as ruas, travessas, becos e praças melhorava a sua percepção e permitia-se maiores e mais frequentes pausas para observar a vida que habitava os espaços e a informação que surgia em todo o lado. Andar naquele ambiente verdadeiramente novo libertou-a do peso e da intensidade que a sessão fotográfica da manhã depositara sobre si. Atravessa a rua num instante de charneira – a partir dali a sua memória e a da própria cidade tornaram-se indissociáveis. Podia finalmente parar.
Sentada numa das poucas mesas que a esplanada do café central ainda cede ao tempo frio, olha o movimento que se desenrola numa das ruas principais. Observa as pessoas na sua azáfama quotidiana e segue algumas até as perder de vista, estabelecendo percursos imaginários que as conduzem até portas, janelas ou pátios que lembra com clareza. Uma dimensão desconhecida barricava-se no interior dessas casas, dentro dos sacos que transportavam e em cada um dos seus desejos, uma vez que as ruas se haviam já aberto aos seus passos. Olha a parede de uma casa em frente, pintada recentemente de branco. Nessa uniformidade de écran lê a luz que varia de intensidade e tende a diminuir, reflexos variados e sombras que seguem disciplinadamente os seus objectos.
Regressa sugestionada pela posição dos ponteiros do relógio que marcam quase as cinco horas. Não segue muito atenta – deixa simplesmente que o movimento lhe dê uma boleia. A partir do momento que avista a casa tenta olhá-la tal como, ainda há pouco, olhara tantas outras, mas é uma visão fugaz – irradia algo que transforma a sua opacidade em transparência vítrea. Escurece duplamente no final de tarde e nos blocos nebulosos. Nas janelas dançam os tons violáceos da atmosfera pesada. Encosta-se a um carro e escrutina o céu, tão fechado que quase podia ser chão – “terra para as minhas raízes-cabelo”, pensa. Cai uma gota no canto do seu sorriso. Corre para a porta sob uma bátega de água.
Sete:
A noite prematura adiantou toda a rotina daquela casa e jantaram pouco depois das sete. O som contínuo da chuva na rua tornava a luz da sala ainda mais quente e fazia com que a conversa fluísse sem interrupções. Quando se falou do sítio onde fora fotografar, olhou para a máquina que tinha deixado em cima da mesa, perto do sofá, deambulando longamente sobre que propriedades desconhecidas poderia ter uma película de filme e o tom rolou em especulações surrealistas e bastante cómicas. Falar com aquele casal que não conhecia assim tão bem revelou-se uma boa surpresa. Até certo ponto, acrescia sentido à sua curta estadia.
Subiu ao quarto relativamente cedo, antecipando o conforto de se estender sobre a cama.
Estática: o peso do tronco assente sobre os cotovelos, numa posição fechada e silenciosa, lê. Ausentara-se, há algum tempo já, nas páginas de um livro de agitados cenários num futuro cosmopolita. Os movimentos rápidos dos olhos focam-se exclusivamente nos caracteres impressos e cingem as suas capacidades à crua transmissão das formas negras sobre o fundo branco, umas a seguir às outras, numa ordem imperturbável da esquerda para a direita e de cima para baixo. Não pode daquele modo, dar conta das imagens que animam todas as paredes do quarto, num processo invertido da percepção. O intrincado mundo visual gerado mentalmente invade as superfícies, antes neutras e serenas, povoando-as sem excepção como uma camuflagem em constante transformação. Todo o vazio foi banido para o branco de cada página e ela prossegue, letra após letra, numa hierática ignorância do espaço que se lhe oferece sem quaisquer barreiras. Ao virar mais uma página é sobressaltada por algo que não consegue identificar e pára, sentidos alerta e a respiração bloqueada. Marca o livro com o dedo e gira sobre si mesma até ficar sentada na beira da cama a olhar fixamente a janela. Ainda chove. Não percebendo o que a poderá ter perturbado, resigna-se a um falso alarme e lembra-se que precisa de saber se sempre tem boleia para regressar ou não. Consulta o relógio enquanto pousa o livro, aberto ao meio, em ‘standby’. O som de um trovão ressoa abafado fazendo com que ela automaticamente relembre o clarão que fizera o corpo do texto saltar do papel. Sai do quarto para fazer o telefonema.
Espera, atenta atrás do vidro, que mais um relâmpago fulmine a noite. Seduzida pela força do temporal, acaricia a nuca e o pescoço, apertando os músculos com os dedos, os pulsos assentes nas clavículas. Antecipa os trovões a chicotearem-lhe os tímpanos com aquele som ampliado de madeira que se quebra e não consegue evitar a agitação que circula rápida no sangue. Está de pé, em frente a uma das janelas da sala e não tem noção do tempo que se precipita para cada um dos instantes em que a luz inunda tudo. ‘É possível que existam dias nestas fracções de segundo. Dias rebeldes a escaparem-se demasiado rápido e que eu tento obssessivamente ler, convencida que me pertencem’ – pensa, enquanto mais uma vaga de luz revela a máquina em cima da mesa. Agarra-a para que não fique esquecida. O sono parece ter desaparecido e decide aproveitar para arrumar as coisas.
Oito:
No quarto vazio consolida-se a pele daqueles dias, grão fino de poros comunicantes com inúmeros espaços e indefinidos tempos. A arquitectura rectilínea abre-se a outros traços e prepara-se para viajar na memória de alguém que parte.
Nessa noite ela atravessa cada um dos planos que abrigam o seu sono para aceder a sítios onde é esperada e cuja geografia lhe será impossível esquecer. A orientação real do espaço que então descobre, subverte todo o sistema pelo qual sempre se regera deixando o seu conhecimento suspenso na vertigem daquele ponto único entre a ascensão e a queda.
Desperta. O barulho de um motor conhecido chama-a para lá da janela, articulando-se com os últimos segundos do sonho, onde seguia dentro de um dos carrinhos que a visitara no chão do quarto. Não esperava que o dia já fosse tão avançado e projecta mentalmente o que tem a fazer antes de poder descer, procurando a sequência mais rápida das acções.
Prepara-se. A precipitação do duche é o único resquício da chuvada do dia anterior e reverberações de raios de sol modelam a textura da cortina. O momento reveste-se de tal perfeição que a certeza de ter que partir se impõe, honrando a insatisfação irrequieta própria dos seres humanos. Desce, quinze minutos depois, com curiosidade de voltar a ver a cara do amigo processada através de tudo o que se passara nos últimos dias.
Nove:
Entra. Pela última vez, regressa ao quarto andando com passos que se duplicam já para saír, mal tenha agarrado o saco que se destaca do chão como um marco. Vai até à porta da varanda e espreita, tentando localizar o carro com os olhos semicerrados para conseguirem alcançar através da intensidade luminosa do dia. Vê-o, logo atrás do outro, onde se encostara antes das nuvens se derramarem na tremenda massa de água que toda a noite lavara aquelas ruas. Abre a porta para avisar que vai descer num instante e é completamente paralisada pelo pânico que emudece qualquer tentativa de verbalização.
Colapsa. Para lá da varanda não vê absolutamente nada, numa cegueira de côr inominável e na qual receia caír indefinidamente. A ausência do ar é densa como lã, os sons anulados à partida num silêncio tão esmagador quanto o ensurdecedor ruído de um avião que aterrasse sobre a sua cabeça. Está completamente aterrorizada porque não há nada que possa definir aquilo e parece ter chegado a um beco, circular, que a asfixia a pouco e pouco numa esfera. Consegue reagir antes que o ciclo se complete e olha para trás, vendo que o quarto está ainda ali. Recua e deixa-se cair no chão, pondo as mãos sobre os olhos que só destapa ao sentir o calor do sol. Vira-se para um dos lados e enrola-se sobre si mesma, agoniada, concentrando-se no contacto com a madeira, que a alivia, levando-lhe o pensamento até plantas que crescem em ‘fast-forward’ como nos documentários televisivos.
O toque de uma mão a afastar-lhe os cabelos da cara trá-la de volta. A voz questiona-a, tentando perceber o que se teria passado para vir a encontrá-la ali no chão e as perguntas atropelam-se nos ouvidos, como se tivesse acabado de acordar: “O que é que te aconteceu? Estás bem? Estavas a demorar tanto tempo….e depois ouvi um baque estranho… Caíste? Estás magoada? Desmaiaste? Queres deitar-te na cama? Um copo de água? O meu irmão pediu-me para te vir chamar… Estás a ouvir?…”
Coloca uma das mãos sobre a mão dela, assegurando-a com o contacto, antes de conseguir falar para lhe dizer que não sabe o que se passou – sentira-se mal e acabara por caír e perder os sentidos. Acrescenta que se sente melhor, só está ligeiramente mal disposta e acaba por se levantar facilmente recuperando, de um momento para o outro, grande lucidez e energia. Abre o saco e tira a máquina, sob a cerrada expressão de preocupação da amiga, dizendo-lhe que espere só um minuto porque vai acabar o rolo. Avança de novo até à varanda e dispara três vezes, a lente orientada para o piso da rua.
Partem
O percurso desenrola-se suave e regular. O caminho de regresso chama-lhe constantemente a atenção e só os troços paralelos à linha do caminho-de-ferro testemunham esse carácter de retorno, reclamando para o seu campo visual familiares faixas horizontais. Tudo o resto é diferente e poderia facilmente conduzir a novos destinos, prolongando a viagem. Fala pouco e ele não contraria esse silêncio, sabendo bem como determinadas palavras necessitam de amadurecer antes de se consumirem no testemunho de alguma coisa. Talvez mais tarde, ou eventualmente só um ou dois dias depois poderiam trocar ideias. No entanto, ele carrega uma tensão que é perceptível e ocupa espaço dentro do veículo.
Ela abre o vidro de tempos a tempos para deixar que a massa de ar se renove e acaba por se rir e praguejar à conta do frio.
Minutos antes de entrarem na cidade, lembra-se de lhe deixar o rolo para que o possa revelar ainda naquele dia. Tinha coisas a fazer mas achava que seria possível ainda falarem à noite. No meio do caos do trânsito, sai do carro e perde-se na multidão para ir até ao sítio que tinha combinado – uma amiga queria levá-la a ver uma exposição que lhe tinha despertado interesse.
Quase uma hora depois, já a caminho da saída da galeria, liga o telemóvel, conexão reforçada com seu quotidiano e depois de se despedir, ouve as mensagens que esperavam no correio de voz até chegar à última – ‘passo por tua casa às dez (…) aconteceu uma coisa um bocado estranha, tens que ver (…) até logo.’
No index fotográfico ela vê
Uma sequência impassível de rectângulos deixados em branco, pontuados, como que por reticências, por três fotografias – reconhece, não o piso da rua, mas minúsculas imagens das pinturas que vira algumas horas antes. O magro conteúdo do envelope confirma-o – três brilhantes cópias em papel fotográfico testemunham fielmente paisagens incertas de colorido intenso. O que diz em seguida contraria a sua intuição:
- Amanhã passo lá. Com certeza trocaram o negativo.
p. barbosa / fevereiro 2004 (editado em conjunto com o catálogo da exposição pela Galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea)